A inteligência artificial deixou de ser apenas tecnologia e passou a ocupar o centro das decisões empresariais no Brasil. Em poucos meses, ela se espalhou pelos times, pelos processos e pelas rotinas, muitas vezes sem critérios claros de uso.
Ferramentas generativas foram adotadas antes de existirem políticas, padrões de dados ou diretrizes mínimas de segurança. Essa combinação criou um problema real: empresas usando IA sem governar IA.
O risco ficou evidente. Hoje vemos equipes usando múltiplas ferramentas simultaneamente, trocando dados sensíveis em prompts e confiando em modelos que nem sempre foram validados.
É o fenômeno da Shadow IA, o uso não monitorado e não padronizado de inteligência artificial. Ela pode ser uma ferramenta poderosa, mas se não for bem usada, representa risco tecnológico, estratégico, jurídico e reputacional.
Em paralelo, o Brasil avança na discussão regulatória. Órgãos como a ANPD e o Banco Central já cobram mais clareza sobre como modelos são treinados, auditados e utilizados em decisões automatizadas. Esse cenário elimina o improviso e exige responsabilidade. A governança deixa de ser recomendação para se tornar obrigação.
Mas o ponto central é que a IA entrou na estrutura decisória das organizações. Ela orienta análises, prioriza tarefas, influencia resultados e, em muitos casos, toma decisões em escala. Quando a tecnologia participa do processo decisório, a empresa precisa garantir supervisão, transparência e controle. Governar IA é proteger o próprio negócio.
Nesse contexto, a nova competência das lideranças é compreender risco algorítmico: saber questionar modelos, identificar vieses, validar dados e entender quando a automação precisa de intervenção humana. Governança não limita inovação, ela torna a inovação sustentável e confiável.
Por isso, a governança de IA se tornou prioridade no Brasil. Porque a tecnologia evoluiu mais rápido do que a cultura, do que os processos e do que as políticas. E agora é a governança que permitirá às empresas avançar com segurança, maturidade e valor real.
No fim, não vencerão as organizações que simplesmente adotarem IA, mas as que souberem governar. E esse é o verdadeiro diferencial competitivo da próxima década.
*Alessandra Montini é diretora do Labdata, da FIA Business School